A NOITE DA LINCE
estou voltando de um lugar suspenso. crio meus pés novamente para aterrissar noutro ar. constantemente é a palavra um. se tento descrever esse lugar penso na cor cinza. sinto o cheiro da fumaça gerada por um incêndio. minha pele ferve e minha boca espuma. a garganta seca das tentativas de gritar pelo que não retornaria. a perda é um lugar suspenso entre o luto e a esperança. inevitavelmente é a palavra dois. a caixa da memória que pandora vigia ébria e às vezes abre. eu sou a passageira descarrilhada que se atropela na lembrança e se perde na curva de uma estrada. mas ainda que a noite torne impossível enxergar qualquer coisa adiante e não haja um poste de luz sequer, é a perdição a lua cheia que ativa a sina da metamorfose e a memória turva acende os olhos de lince que, corajosamente, atravessam o desespero noturno no encontro das pequenas estrelas mortas. ciclicamente é a palavra três. farejo a noite até o dia, onde sou novamente a feiticeira metamorfa. depois de várias luas desaparecida, volto parecendo a mesma, mas provocando a veracidade das aparências pela vibração de minha fala. ninguém sabe que rugi faminta até encontrar o caminho de volta. mas apareço como se estivesse saciada. não gosto que percebam minha fome para que me ofereçam qualquer coisa, apenas pela culpa de todo banquete desperdiçado de suas mesas. enquanto isso, uma lince negra corria com a língua pendendo de sede. em meu retorno a caça está garantida, pois a noite sabe recompensar as que não anestesiam os instintos durante a sua passagem.
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