CAMAFEU DE BRONZE
quero que meu rosto seja a face sem neutralidade de traços. que seja sempre o rastro de minhas passagens múltiplas e que quando vierem as rugas, que elas sejam o caminho de volta. pinto meu rosto. elaboro cores. mantenho o fundo avermelhado de minha cor. bronze. escolho orná-la com ouro e com prata. acendo o vermelho nos olhos para que eles sejam a lembrança do fogo. sou a medusa que incinera caso seja muito olhada, então tento criar outro nome para essa mitologia. meu rosto, mito vivo inventado. exatamente como quer ser. pele entrecruzada em pelos que podo. pela suavidade que não busco, mas reflito. gosto de meu rosto pedra bruta, caminho de rochas. do meu empedrado rosto de água salgada depois das lágrimas que bebo como se fossem matar a sede que não mais sinto depois de derramá-las. me faltam os dentes. esse camafeu sem neutralidade de traços é meu. é do deus que a moldou e entregou à deusa que me gestou e se revelou na casa que me pariu. é o amor que nutro pelo ventre inevitáv...