PRECE DE UMA TRAVESTI ENVENENADA

eu desejo autonomia espiritual para nós, travestis e pessoas trans. eu desejo que nossas mentes não sejam açoitadas pela reprodução do cristianismo disfarçada de resgate ancestral. é preciso ir mais fundo para dizer que se resgatou alguma coisa. eu desejo que esses nossos corpos inquietos, mutantes e belos no espírito e na carne possam se reconhecer sagrados, sem o aval dos delírios de poder, de lideranças frustradas ou da falta de humildade em aprender o que não se sabe. 

ouvi certa vez que as catedrais são altas do jeito que são porque, supostamente, quanto mais altas, mais perto do deus. como se a relação com o divino fosse vertical, de cima pra baixo ou de baixo pra cima. eu só acredito numa espiritualidade horizontal. onde o divino dialoga porque me ama. onde a deusa me vê e eu também a vejo. não porque me julga, não porque me rejeita. mas porque me cuida; e o toque do cuidado não é apenas suave. sim, há mãos que pesam, mas chamar isso de castigo é se entregar à crucificação em vida, à flagelação que é injetada feito veneno em nossas veias. 

em algum momento a vida me reencantou porque orixá me mostrou que não há imundice na nossa natureza, há complexidade, caminho pra aprender, oportunidades de purificação, regeneração, mudança, abundância. que não há erro na minha expressão no mundo e que não devo depender de intermediário para sentir o que o vento me diz e para onde me leva. então nesse dia, desejo pra nós, autonomia. que estejamos apenas onde a nossa totalidade é não só compreendida, mas amada. onde nossa ancestralidade genuína seja recebida com a dignidade que merece. 

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